O jeans rasgado e a roupa sem sexo

Lembro como se fosse hoje:eu devia ter em torno de 12 anos, estava formando meu estilo (por incrível que pareça, nunca fui daqueles que queriam o mesmo que os coleguinhas), era tradição eu ir ao Centro da cidade com a minha mãe para pagar contas e comprar roupas novas. Eram as tardes mais divertidas da minha infância, quando eu saía com ela e podia me emergir inconscientemente em um mundo feito de peças penduradas em araras e lojas cheirando a sapatos novos.

Ao passar na vitrine de uma loja, meus olhos brilharam. Era uma calça jeans linda, rasgada, num tom claro, bem estonado que atraiu minha atenção. O corte era reto, ainda não tinha começado a moda das calças skinny. Foi paixão à primeira vista, e alguns dias para convencer a minha mãe que eu precisava comprar uma calça que já vinha rasgada. Mas consegui.

Fomos à tal loja. Meu coração cheio de felicidade, afinal, teria o jeans rasgado que tanto amei. A vendedora olhou com uma cara estranha, como se não lembrasse da peça. De longe eu vi e disse: “É essa!”. Ela, de pronto, soltou: “Querido, essa calça é feminina, infelizmente. Mas tu pode olhar as masculinas aqui”, apontando para uma arara cheia de calças largas, com um estilo insonso, em cores básicas e sem um rasgo sequer.

Saí da loja extremamente frustrado e, claro, sem comprar calça nenhuma. Durante a tarde fui lembrando de peça por peça que tinha no guarda-roupas e lembrei: eu tenho jeans num tom próximo daquele, por que não rasgar? Me escondi e fiz. Em poucos minutos estava eu, feliz como nunca, com meu jeans rasgado. E minha mãe com uma vontade imensa de me matar, por eu ter detonado uma peça que ela guardava para eu usar em ocasiões especiais.

Cresci, comecei a comprar minhas roupas. A moda do jeans super rasgado, como era na minha adolescência, passou. Mas a minha paixão por este estilo continuou. Há uns cinco anos encontrei uma calça rasgada em uma loja. Compensei minha frustração da infância e adquiri. Com o tempo ela foi rasgando mais e mais, até chegar ao estado que está hoje.

Jeans rasgado(O rasgo no joelho eu mesmo fiz, com tesoura e faca, como na adolescência.)

Escrevi este post por dois motivos, que explico abaixo.

1 – Calça jeans rasgada está na moda novamente. O retorno do estilo grunge trouxe de volta esse clássico sinônimo de rebeldia. Você pode apostar nas peças compradas em lojas, ou ir além e fazer do jeito autêntico, pegando uma calça esquecida no fundo do armário e colocando sua personalidade nos puídos e rasgos (alô, sustentabilidade e economia).

2 – Mães, pais, vendedores e vendedoras: não deixem uma criança se frustrar dizendo que uma roupa é “para menino” ou “para menina”. Mais do que nunca podemos afirmar que roupa não tem sexo e não é uma saia ou uma calça que vão modificar a personalidade da pessoa. Lojistas, sigam exemplos de lojas como a Selfridges, de Londres, que aboliu as divisões masculina e feminina e apresenta as roupas juntas e treinem suas equipes para ver isso com naturalidade. Não é feio, não é estranho, não é motivo para piadas. É apenas um pedaço de roupa costurado, que materializará o que queremos mostrar ao mundo.

P.S: já comprei muita calça feminina depois de adulto. E, pasmem para muitos, ninguém perguntou.

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