Escolhas

Moschino Anna Dello Russo

Você abre o armário pela manhã. Pega despretensiosamente uma calça jeans, combina com uma camiseta básica e joga um blazer preto por cima. Nos pés, um sapato preto, sem muitos detalhes, apenas porque não pode andar descalço pelas ruas. Se estiver chovendo, corre para pegar o guarda-chuva, aquele preto, básico, não o xadrez ou aquele com estampa de leopardo.

Em tempo, sua vizinha, aquela que acorda sempre atrasada e você considera seu oposto, acorda correndo, veste um vestido com estampas enormes de flores, uma jaqueta jeans desbotada, com algumas tachas em detalhes, coloca um chapéu, para se prevenir da chuva usa galochas e leva consigo um guarda-chuva transparente.

As propostas de looks são totalmente opostas. Enquanto uma vai para o básico, a outra ousa, pira e deixa a criatividade solta. Querendo ou não, ambas estão passando uma mensagem de moda. Já pensou que a camiseta branca combinada com jeans, que você escolheu com tanto afinco para mostrar uma despreocupação com o visual, pode passar o recado de que “Hey, eu não me importo com essas questões estéticas. Pra mim moda é apenas comércio”?

Pois a moda tem esse “poder”. Querendo ou não, fazemos uso dela. Contra ou a favor, ela está em nosso dia a dia. Basta escolhermos uma roupa, barata ou cara, na arara de uma loja. Por mais que você se diga contra ela, a consumirá. Afinal, já experimentou ir nu para a rua? Cadeia na certa. Poucas expressões têm essa possibilidade. Se não gostamos de música, basta não ouvi-la, se não queremos ler livros, basta passar longe de bibliotecas ou livrarias. Se não desejamos consumir cinema, é só não assistir. Mas a moda não. Querendo ou não, ela está ai e é usada por todos, entusiastas ou haters desse movimento capitalista.

É claro que para quem “não está nem ai” para ela, as tendências, combinações ou estilos não importarão. Para essa pessoa, a roupa será apenas uma necessidade fútil, exigida pela sociedade. O que ela veste, a marca que produziu ou a inspiração do estilista pouco importam. Ainda assim, usa-se dela para pertencer a um grupo. Quem não se preocupa com moda costuma ser avesso a tendências e só usa o básico. É assim que essas pessoas se reconhecem. Se a menina do vestido estampado, jaqueta jeans e galocha tentasse entrar para essa “tribo”, provavelmente seria recebida com narizes torcidos.

Dia desses, lendo uma entrevista da socióloga de moda Susana Saulquin, pude perceber isso de maneira mais “explicada”. Segundo ela, “Ao se vestir, você quer estar como todos, para não destoar, mas, ao mesmo tempo e de maneira contraditória, quer ter algo diferente, que o distinga. Por isso, quando se é turista, coloca-se qualquer coisa, não importa, pois não se é conhecido.”

Moda é segmentação e significação. Se vestimos algo, consciente ou inconscientemente, estamos falando ao mundo quem somos, o que pensamos, a que grupo pertencemos. Não é algo escolhido, é instintivo. Quando decidimos pela camiseta branca ao invés de uma estampada, mostramos que somos ou estamos básicos. Assim como quando optamos por uma estampa, mostramos uma mensagem mais direta, que tenha a ver com tal desenho.

A vida é feita de escolhas. O estilo é uma delas, a moda não.

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